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27 maio 2021

Dia Internacional da Biodiversidade: para quê?

Por Samira Scoton. Doutoranda em Estudos Marítimos (PPGEM/EGN); Mestre em Segurança Internacional e Defesa (PPGSID/ESG); Pesquisadora do LSC/EGN e do NEPEDI/UERJ; Advogada (FND/UFRJ).

 

No mês de maio, comemora-se o dia internacional da biodiversidade. Pegando carona nessa data especial, estabelecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1992, aproveito para trazer esse tema na coluna desse mês. Se a data foi feita com o intuito de comemorar, talvez o motivo de sua criação não esteja tão alinhado com a realidade. Substituir a comemoração pela conscientização pode ser mais frutífero.

 

Contando um pouco sobre essa data, ela foi criada no dia 22 de maio de 1992, quando se chegou a um “consenso” sobre o texto da Convenção Sobre Diversidade Biológica (CDB), que fora construído em âmbito da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, mais conhecida como Rio-92.

 

Em âmbito da CDB foi divulgado, em 22 de maio, um curto vídeo[1] que apresenta pessoas de algumas etnias com a #wearepartofthesolution (somos parte da solução – em português), mostrando imagens de embalagens plásticas nas praias e fumaça saindo do escapamento de um carro e de uma chaminé de indústria. Como possíveis soluções para esses problemas, imagens de pessoas soltando tartarugas na praia e coletando lixo, aliadas a peixes coloridos nadando próximos a anêmonas e corais. Nenhuma alusão às indústrias ou agentes que poluem ou superexploram os recursos vivos.

Na corrente dos peixes coloridos, o discurso desse ano[2] do Secretário Geral da ONU, António Guterres, foi mais do mesmo. No mesmo caminho do discurso de 2020,[3] Guterres afirma que as escolhas sustentáveis são a chave para o sucesso. Concordamos quanto a isso, entretanto, pergunto: escolhas sustentáveis de quem? Nada mencionado a respeito disso.

 

Outro acontecimento nas agendas da ONU, nesse ano de 2021, é o início da “Década das Nações Unidas da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável”, [4] chamada de Década da Ciência Oceânica, cujo lema é “a ciência de que precisamos para o oceano que queremos”. Essa agenda advém da necessidade de se trabalhar melhor o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) número 14 (vida na água) da outra agenda também ativa:  a “Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável”[5]. Por último, e para fins de conhecimento, cita-se outra semelhante agenda da ONU: a Agenda 21[6], que é um dos produtos da Rio-92, tem estrutura e objetivos semelhantes a Agenda 2030, e não teve suas metas alcançadas na totalidade até hoje.

 

O dia 22 de maio, portanto, deveria ser um meio para conscientizar e não para comemorar. Apresentar às pessoas “de carne e osso” temas como a perda e a falta de conhecimento e mapeamento da biodiversidade – principalmente marinha; o porquê de se conservá-la, apontando razões biológicas, sociais e econômicas, dentre outras. Há que se conhecer, falar e colocar no cotidiano das pessoas as discussões sobre esse tema. E há que se identificar quais são os grandes responsáveis pelo terrível panorama em que se encontra a biodiversidade desse planeta atualmente.

 

Não se pode esperar que as pessoas se conscientizem se continuarmos a atrelar poluição por plástico somente a embalagens descartadas nos oceanos. Há que se apontar fatores interligados como a falta de tratamento e destinação correta de resíduos, além das indústrias e entidades responsáveis. Se educarmos uma criança com a diminuta informação de que se ela jogar a embalagem do seu iogurte no lixo estará salvando o meio marinho, sinto em lhes dizer, mas ela será muito frustrada quando chegar a adolescência e perceber que não restou nenhuma tartaruga sequer para contar a história. A educação crítica em relação a proteção da biodiversidade é fundamental e é para ontem.

 

Somente se respeita e se protege, o que se conhece. A biodiversidade marinha ainda não está totalmente mapeada. O mar brasileiro, conhecido como Amazônia Azul, além de não estar totalmente mapeado, [7] ainda conta com 143 espécies ameaçadas, 161 habitats marinhos e 24 fatores de impacto advindos de atividades humanas, de acordo com estudo divulgado no final de 2020. [8] Perante esse panorama, a proposta da Década da Ciência Oceânica é muito relevante, haja vista a necessidade de cooperação e transferência de tecnologia para se tornar possível essa gigante e feliz tarefa de mapear e entender a biodiversidade marinha.

 

O dia internacional da Biodiversidade, ressalto, deveria ser para conscientizar. Para apontar os responsáveis pela diminuição sem precedentes da biodiversidade, discutir a cooperação e a transferência de tecnologia, dividir o conhecimento sobre a natureza e os ecossistemas. Deveria ser para conversar sobre o respeito ao meio ambiente e a todas as formas de vida. Em 2021, essa data, com certeza não é para comemorar.

 

[1] CONVENTION ON BIOLOGICAL DIVERSITY. 22 May 2021: International Day for Biological Diversity. Disponível em: 22 May 2021: International Day for Biological Diversity (cbd.int)

[2] ONU. António Guterres (UN Secretary-General) on the International Day of Biological Diversity 2021. Disponível em: UN Live United Nations Web TV – António Guterres (UN Secretary-General) on the International Day of Biological Diversity 2021

[3] ONU. António Guterres (UN Secretary-General) on the International Day for Biological Diversity 2020. Disponível em: UN Live United Nations Web TV – António Guterres (UN Secretary-General) on the International Day for Biological Diversity 2020

[4] UN. Decade of Ocean Science for Sustainable Development. Available in: The Decade of Ocean Science for Sustainable Development (oceandecade.org)

[5] ONU. The Sustainable Development Agenda. Disponível em: The Sustainable Development Agenda – United Nations Sustainable Development

[6] UN. Agenda 21. Available in: Agenda 21 .:. Sustainable Development Knowledge Platform (un.org)

[7] SCOTON, Samira; Pérez, Daniel Vidal. Desconhecimento dos recursos da Amazônia Azul afeta a segurança alimentar. Disponível em: Desconhecimento dos recursos da Amazônia Azul afeta a segurança alimentar – Projeto Radar

[8] MAGRIS, Rafael A; et all. A blueprint for security Brazil’s marine biodiversity and supporting the achievement of global conservation goals. Diversity and Distributions. John Wiley & Sons Ltd, 2020. Disponível em: A blueprint for securing Brazil’s marine biodiversity and supporting the achievement of global conservation goals – Magris – 2021 – Diversity and Distributions – Wiley Online Library

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