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17 abril 2020

A pandemia e o mar: o que acompanhar? (F.O.M.O.)

Por Soraya Fonteneles de Menezes.
Advogada, Mestre em Estudos Marítimos pela Escola de Guerra Naval, Doutoranda em Estudos Marítimos pela Mesma Instituição.

Após um mês de quarentena, no qual o grande imperativo aos que podiam foi stay at home, ouço comentários  sobre a percepção da passagem do tempo de quem ficou em casa: parece que o tempo parou, nada está acontecendo. No mundo marítimo, sempre dinâmico, a sensação entre os estudiosos é oposta: o tempo acelerou, tudo está acontecendo. O título original dessa coluna seria The end of the word as we know it, uma referência a um clássico do R.E.M.. Uma vez que muito já foi dito, o propósito da coluna de hoje é apresentar dados e as palavras de especialistas em temas que podem ter passado despercebidos. Atenção para os links no corpo do texto!

Palavras do Secretário-Geral da IMO. O Sr. Kitack Lim, em uma reunião virtual em primeiro de abril, na qual participaram alguns líderes da ONU e o próprio Secretário-Geral da Organização, salientou sua preocupação com a segurança e o bem estar do trabalhador marítimo durante a pandemia. Em sua fala, destaca-se: Mr Lim reiterated his message that shipping is a vital artery for the economy to enable the global supply chain and global trade flows, including in particular urgently needed pharmaceuticals, medical equipment and food supply. Seaborne trade is still flowing but challenges are growing due to restrictions being introduced by countries. 

Choque do Petróleo. Apenas na última sexta-feira, 17.04, o preço do barril de petróleo caiu 8%, fechando o dia em US$ 18,27. A queda dos preços certamente altera a dinâmica do setor de energia, uma vez que preços abaixo de  abaixo de US$ 20 dólares praticamente inviabilizam a indústria americana de shale oil. Segundo analista da Agência Internacional de Energia: The oil world has seen many shocks over the years, but none has hit the industry with quite the ferocity we are witnessing today. Vale ainda conferir os cenários desenvolvidos pela BCG para Global Oil Market.

China. Como principal importador mundial de petróleo, qualquer alteração significativa na demanda chinesa se torna um enorme desafio estratégico. Reporta-se uma queda significativa desde o início da doença em seu território ainda no final de 2019, impulsionada, entre outros,  pela  paralisação dos transportes aéreos e da produção fabril. Estima-se que queda na demanda atingiu o pico de 12%.

Ásia. A pandemia deve interromper o crescimento da Ásia pela primeira vez em 60 anos, segundo projeção do Fundo Monetário Internacional.  Ao mesmo tempo, a região concentra 60% da população mundial, grande parte em situação vulnerável diante de uma crise, visto que também abriga 35% das pessoas em maior situação de pobreza, conforme dados do Banco Mundial.

Construção Naval. Segundo relatório do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis, estima-se inicialmente um atraso  na produção de 22 das 28 plataformas FPSOs encomendadas no mundo. Dentre elas, 15 dependeriam de estaleiros chineses, sendo 5 encomendas da Petrobrás. Os atrasos poderiam chegar a um ano e aumentar em até 30% o valor dos projetos iniciais. Os dados são do E-book produzido sobre os impactos do coronavírus no mercado de petróleo e gás, disponível aqui.

Pesca Artesanal. Durante o domingo de Páscoa, uma importante emissora mostrou que em Fortaleza numerosas pessoas que foram até o mercado de peixe do Mucuripe para comprar o tradicional pescado tradicional das festividades, contrariando as orientações da quarentena. O mesmo aconteceu em diversas cidades litorâneas pelo país, evidenciando o laço imaterial arraigado no homem em relação ao mar. Trata-se, contudo, de uma situação excepcional. O pescador tradicional encontra-se em situação de extrema fragilidade na atual pandemia, como fica claro nessas entrevistas.

Pesca Industrial. Situação bem diferente da pesca em larga escala, que tende a passar por um momento favorável, como aborda detalhadamente o estudo do CSIS Covid-19 at Sea: Impacts on the Blue Economy, Ocean Health, and Ocean Security.

Pesquisa Científica.  O mesmo estudo aponta a redução de dados coletados com o cancelamento de expedições voltadas à pesquisa científica, podendo acarretar em prejuízos no planejamento do manejo dos estoques pesqueiros.  Os prejuízos da interrupção das pesquisas de campo trazem inquietação para diversas áreas da ciência.

Tecnologia. O Lloyd’s Register divulgou que concluiu com sucesso uma auditoria envolvendo parâmetros de qualidade, segurança e conformidade ambiental segundo as normas ISO na Whittaker Engineering, uma etapa essencial para validar as operações da empresa do ramo de petróleo. A inovação é que todo o processo foi conduzido de forma remota, sem a exposição física dos auditores.   Mais informações sobre o LR Remote aqui.

Investimento em tecnologia. A preocupação com a vida do trabalhador marítimo exposto a uma situação extrema como a pandemia covid-19 seria o incentivo que faltava para a o uso das embarcações autônomas?  Paul Cuatrecasas, autor do livro Go Tech or Go Extinct, exalta em sua análise que believes the post-coronavirus years will be all about digital disruption.

Poder Naval. A velocidade do contágio da covid-19 atingiu a US Navy, em especial seus navios aeródromos. O USS Theodore Roosevelt, atualmente em Guam, supostamente já teria uma vítima fatal da doença. A Marinha norte-americana nega as notícias que até quatro de seus onze porta-aviões estariam com a tripulação contaminada.  Na França, o Ministro da Defesa declarou publicamente que cerca de dois terços dos tripulantes do aeródromo Charles-de-Gaulle foram testaram positivo para a doença. O navio retornau ao país depois de participar de um exercício da OTAN no Atlântico.

Obangame Express. 2020 foi cancelada em razão da pandemia. Gen. Stephen J. Townsend, comandante do U.S. Africa Command, declarou: We may reduce in scope the size or cancel an exercise, but we will continue to lean forward to make sure troops in Africa have what they need.