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11 novembro 2019

Recortes no Dia Mundial da Ciência


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Por Bruno Gabriel Costelini
Oceanógrafo pelo CEM/UFPR e doutorando em Direito na Universidade de Durham

 

Recortes no Dia Mundial da Ciência

Escrevo essa coluna no domingo, 10 de novembro, “Dia Mundial da Ciência para a Paz e o Desenvolvimento”, data criada pela UNESCO em 2001 para promover o papel da ciência, as colaborações científicas entre as nações e chamar atenção para os desafios que se apresentam.

A importância da ciência para o Direito do Mar e para o estudo e o manejo dos oceanos não pode ser superestimada. Todas as atividades humanas no mar, da pesca comercial, passando pela extração de minérios (como o petróleo) até a navegação e o transporte, dependem do conhecimento científico e da tecnologia para serem levadas a cabo com sucesso e sem prejuízos ao meio ambiente.

Algumas notícias que nos chegam nessas últimas semanas mostram, contudo, as contradições, desafios e até mesmo alguns dilemas morais de conciliar interesses diversos, esferas pública e privada, ganhos imediatos e danos futuros, em nossa incessante busca por recursos naturais.

Começando pelo derrame de óleo que vem atingindo o litoral brasileiro já há mais de dois meses. Como é de conhecimento de todos, e foi muito bem resumido na última coluna de Carla Fegona aqui para o IBDMAR, grande confusão se seguiu ao misterioso incidente, tanto na resposta governamental para conter seus efeitos, quanto na determinação da origem e, talvez, mais criticamente, na informação ao público sobre o que se passava.

Enquanto pesquisadores de várias universidades públicas (UFPE, UFRPE, UFRJ, UFBA, entre outras) empenhavam-se conjuntamente e na medida de suas limitadas capacidades para identificar quimicamente e modelar fisicamente a dispersão do material, autoridades trabalhavam no sentido contrário, espalhando notícias falsas e especulando politicamente, enquanto os protocolos de resposta tardavam para ser postos em prática.

Na esteira desses trágicos acontecimentos, outra notícia, vinda de minha alma mater, o Centro de Estudos do Mar da Universidade Federal do Paraná (CEM/UFPR), traz alguma esperança. Numa parceria com a Universidade de Lisboa, eles estão desenvolvendo o “Portal Brazilian Sea Observatory (BSO) – Observatório do Mar”, uma plataforma de monitoramento e modelagem em tempo real da hidrodinâmica costeira.

A princípio cobrindo o litoral de Paraná e Santa Catarina, a ideia é estender seu raio de ação a toda a costa brasileira, permitindo assim o acompanhamento e previsão de movimentação de quaisquer objetos ou fluidos visíveis por meio de satélites ou in situ, como eventuais derramamentos de óleo, como o ocorrido no Nordeste do país.

Em outra ponta, o anúncio de que a Royal Dutch Shell investirá mais de 15 milhões de reais em um projeto de pesquisa coordenado pelo Instituto de Geociências da UNICAMP para medir e analisar dados das rochas do pré-sal, os gigantescos depósitos que são o apanágio do orçamento brasileiro, vide o entusiasmo inicial e a decepção que se seguiram aos últimos leilões de lotes para exploração.

Na Europa, por seu turno, notícia semelhante de que a mesma Shell doará 6 milhões de libras esterlinas (cerca de 30 milhões de reais) para o grupo de ressonância magnética da Universidade de Cambridge, também ligado à pesquisa de extração de petróleo, encontrou resistência de diversos grupos que questionam o envolvimento da instituição de ensino com uma indústria extrativa de carbono.

Já há alguns anos um lobby muito forte de alunos e ambientalistas tem se firmado com sucesso no hemisfério norte para forçar universidades a desinvestir seus fundos de manutenção (o dinheiro de doações cujos rendimentos cobrem grande parte de seus orçamentos) de empresas que contribuem para o aquecimento global, como petrolíferas. No Brasil, esse movimento parece não ter ainda aportado.

Como se vê, não são triviais as relações de forças que envolvem ciência, economia, política, empresas e governos. Mas é com esse meio confuso e tortuoso, o mundo real, que temos que conviver. Podemos (devemos!) comemorar a ciência, afinal é ela que nos trouxe até aqui, mas não percamos de vista os diversos interesses que a circundam e eventualmente a distorcem e ameaçam.