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04 novembro 2019

CARRANCAS. SÓ QUE NA POPA!!!

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por Marco Antônio Ribeiro Tura

Pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo e da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. Pós-Doutor em Direito Político e Econômico pela Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo. Doutor em Direito Internacional e Integração Econômica pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Presidente do Centro Brasileiro de Litígios Econômicos (Grupo Caraíve). Representante do Brasil no Comitê Global de Direito dos Investimentos Internacionais (International Law Association).

 

CARRANCAS. SÓ QUE NA POPA!!!

Ao ler uma reportagem sobre dona Tânia, figurante no filme “Bacurau”, lembrei-me da primeira cuidadora de minha filha: dona Bia. Tânia e Bia têm em comum a rebeldia. Elas se recusaram a aceitar os prenomes que receberam dos pais e adotaram aqueles que lhes agradavam.

A opção por confrontar a realidade registral é tão radical quanto aquela de confrontar a realidade material. Tem algo de sonho. Tem algo de mentira. Tem algo de falso. Tem algo de fantasia.

Todos têm o direito de mentir se isso não causar danos pessoais ou patrimoniais a outros. Nas suas vidas privadas, os indivíduos não apenas podem como, invariavelmente, o fazem: mentem, mentem e mentem.

Por vezes como estratégia de sobrevivência. Própria e dos outros.

Lembro de certa vez, no Ministério Público, encontrar com uma desafeta na garagem. Esclareço: desafeta era mais pela imaginação dela do que por força da minha.

Não a cumprimentei para evitar arrastar um papo que já sabia a toada. Ela, firmemente, reclamou sobre o assunto.

Nesse instante eu disse que não a tinha visto. E ela, claro, disse que eu mentira!

Disse a ela educadamente que a acusação era grave e traduzia conduta incompatível com alguém de sua posição. Tive suas desculpas e, mais importante, seu silêncio por alguns andares no elevador. Agradecido, sorri e segui no meu quando a porta abriu.

Pessoas mentem. Não só por sobrevivência. Mas talvez até por consciência de que a verdade pode ser algo pior. Isso, porém, é na vida privada. Não na vida pública.

A mentira na vida pública é abjeta, muito embora tida como algo natural porque naturalizada por práticas cotidianas centenárias nessas terras.

Do sujeito público espera-se transparência e decência. Algo em tudo diferente do que temos presenciado.

A chegada do óleo nas praias nordestinas foi o ingrediente que faltava para que criaturas carrancudas, recentemente emersas das profundezas, legitimassem ação inusitada. Não mais fingir. Não mais mentir. Nada de tergiversar. A ordem agora é fazer da realidade imagem e semelhança de sonhadas noites gélidas.

Afinal, de onde veio o óleo?

A resposta cheira a enxofre. Não se sabe, mas se diz saber e, pior, desbragadamente, mente-se; pura e simplesmente. Aos que reclamam seus direitos, imputam-se condutas ilícitas. Do outrora epíteto de “chato”, chega-se à tipificação de “terrorista”.

A santidade de alguém pode ser medida pela dose de silêncio que guarda sobre suas próprias maldades e os vivos homenageados como heroicos são, a rigor, os que mais correram.

O mundo dos feios e estúpidos é feio e estúpido. Muito estúpido. Mais até do que feio.

Eu aceito a mentira para sobreviver aos desagrados dos encontros indesejados em elevadores e corredores dos locais de trabalho.

Mas não aceito a mentira como instrumento de subtração dos agentes públicos às suas responsabilidades e de negação às gerações presentes e futuras do domínio sobre suas próprias vidas.

As carrancas nórdicas no baixo medievo eram conhecidas como “drakkar” pela lembrança do dragão em suas feições.

Nessa barca furada em que nos metemos como nação o que teremos como ponta na proa serão seres menos imaginários, mas, infelizmente, nada elegantes, nada belos.

E permanecerão, temo que por muito tempo, a usar do óleo para hidratação das respectivas carrancas de velha peroba.

O mar, minhas queridas e meus queridos, salva a si. Apesar de nós e, se necessário, contra nós.

Por nossas filhas, filhos, netas e netos banho-me nas águas de Heráclito.

A mudança é a regra. E o planeta, apensar da composição da palavra, para alegria geral, gira em torno de seu eixo. Rapidinho. Segure-se e o acompanhe.