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26 setembro 2019

Uma tábua de salvação para os náufragos da educação nacional

 

Marco Tura1

Por Marco Antônio Ribeiro Tura

Pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo e da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. Pós-Doutor em Direito Político e Econômico pela Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo. Doutor em Direito Internacional e Integração Econômica pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Presidente do Centro Brasileiro de Litígios Econômicos (Grupo Caraíve). Representante do Brasil no Comitê Global de Direito dos Investimentos Internacionais (International Law Association).

 

UMA TÁBUA DE SALVAÇÃO PARA OS NÁUFRAGOS DA EDUCAÇÃO NACIONAL

A temática do nepotismo voltou a ser debatida mais frequentemente quanto ao seu alcance e conteúdo e quanto a sua incidência em polêmico caso planaltino.

Da forma como chegou até a atualidade, a expressão quer traduzir uma situação em que alguém favorece pessoa com quem guarde relações conjugais ou parentais até certo grau.

Na sua origem, todavia, o radical “nepos” reportava-se ao tratamento benéfico dado ao sobrinho do poderoso, havendo registro histórico de que um papa teria conferido posto na hierarquia da Igreja para um seu parente, conhecido, por conseguinte, como o “cardeal-sobrinho”.

Perguntar-se-á o leitor, afinal, qual a razão de tratar deste tema em coluna reservada às questões do Direito do Mar.

É que a coluna de hoje é uma maneira de dar publicidade a um presente de um parente meu, uma sobrinha mais especificamente.

Com seu trabalho, minha sobrinha, a bióloga Daniela Tura de Almeida, aguerrida professora e dedicada pesquisadora, deu-me a alegria de ver que, apesar do maremoto que atingiu a educação nacional, nem todos se afogam na bestialidade e alguns ainda têm a sorte de encontrar uma tábua, um bote e até findar em uma ilha de racionalidade e quiçá de solidariedade.

Sobre uma das consequências desse seu maravilhoso trabalho que falo agora.

Daniela formou-se por universidade pública tendo a clareza de que, além dos méritos, tinha muita sorte porque cercada de pessoas que exortavam os bens da cultura e do intelecto.

Desde o início, optou por fazer Ciência.

Mas não pode seguir, desde logo, na carreira acadêmica por razões que todos nós conhecemos sob o eufemístico nome de “ajuste das contas públicas” —aquele mesmo ajuste que, curiosamente, não atinge a gigantesca dívida pública que alimenta a ciranda financeira, mas atinge recursos para a pesquisa científica.

Por isso, foi ao mercado; primeiro como consultora e, após, para sua realização sentimental, como professora.

Leciona, atualmente, em uma escola situada a centenas de quilômetros do Litoral do Estado de São Paulo.

Sortuda como ela só, foi nessa Escola (com inicial maiúscula) em que encontrou mais gente boa e, ao lado da professora Caroline Wenzel Florindo e do professor Rodolfo Ferreira Biazotto, empreendeu um belíssimo desafio, exposto no mês de agosto em evento da UNESCO.

O projeto, denominado “Koelle Sustentável”, surgiu no início do ano de 2019 como modo de participar do desafio da ONU “Volta às Aulas – Mares Limpos”.

Um de seus objetivos foi o de gerar reflexões a respeito de como os moradores da região de Rio Claro, no interior paulista, contribuiriam para a poluição dos oceanos.

Alunos foram organizados para atuarem como multiplicadores na conscientização da comunidade e, a partir disso, ações foram iniciadas na escola e na cidade.

Durante três meses foi realizado o mapeamento do tipo e da origem do lixo produzido na escola e evidenciou-se a inexistência de separação adequada e a ocorrência de grande desperdício de alimentos, o que culminou com a instalação, pelos próprios alunos, de estrutura para a coleta de lixo destinado à reciclagem.

Além dessa intervenção mais direta, o projeto levou ao desenvolvimento de ações educacionais como, por exemplo, a produção, por alunos do ensino fundamental, de livros digitais sobre a poluição dos oceanos, observação de processos industriais de resíduos para elaboração de documentário e pesquisa sobre a origem e o destino do lixo da cidade a partir de informações obtidas “in loco” no aterro sanitário.

Estudiosos, com pesquisadores das áreas de Relações Internacionais, Biologia Marinha e Educação Ambiental que atuam na Universidade Federal de São Paulo, na Universidade Estadual Paulista e na Faculdade de Campinas, os alunos aprenderam sobre as possíveis soluções para os danos causados pelas atividades humanas aos oceanos, especialmente com o descarte do plástico que se incorpora ao pescado e volta aos nossos corpos quando o consumimos.

Engajados, os alunos desse projeto de pesquisa-ação, contribuíram para o reflorestamento da mata ciliar do rio Corumbataí através da plantação de dezenas de mudas de árvores e conseguiram até mesmo o apoio do prefeito municipal para que suas atividades fossem ampliadas em futuro próximo.

A Escola ficou entre dez finalistas no desafio da ONU.

O projeto escolar, no entanto, não acabou.

Não posso afirmar que a chama da sustentabilidade e, especialmente, da proteção dos oceanos, vá permanecer nos envolvidos durante suas longas vidas.

Afinal, Greta Thunberg tem razão. Como podemos ousar ir aos jovens com esperança após tudo o que lhes legamos?

Sonhador que sou, em meu coração cansado e envelhecido a esperança permanece teimosamente. E ainda mais a gratidão que sinto pela demonstração de uma coragem que eu já não tenho.

Nesses tempos tristes, méritos devem ser narrados em verso e prosa aos quatro cantos do globo e postos em relevo sem pudor algum.

Pudor devemos ter quando do reconhecimento de que há limites para as ações, que o mundo não existe para nos servir e que um dia, mais cedo ou mais tarde, tudo cobra seu preço, sejam as vaidades, sejam as venalidades.

O problema é que estamos chegando em níveis tais de irracionalidade e de egolatria que, não tenho dúvidas, o preço cobrado não terá como ser pago.